Iraque: tensões e conflitos que se arrastam há um século
A Revolução Industrial, que se estendeu pela Europa entre os
séculos XVIII e XIX, provocou um
descompasso na produção daquele continente, sobretudo no tocante à necessidade de se obter matérias-primas e
novos mercados consumidores. A Inglaterra, primeira nação a realizar a
Revolução Industrial, foi também a primeira a sentir esses efeitos, partindo,
então, atrás de novos mercados para seus produtos.
A busca de matérias-primas estratégicas,
como ferro, cobre, carvão, bem como de ouro, prata e demais pedras preciosas,
fez que regiões como África e Ásia, até certo ponto ignoradas, apesar da
expansão marítima dos séculos XV e XVI, se tornassem presas valiosas para as
potências europeias. Havia outros fatores que empurravam os europeus para uma
prática colonialista: a possibilidade de
transferir colonos para as regiões conquistadas, dando uma solução para o
problema de superpopulação na Europa.
A Primeira Guerra Mundial foi um conflito em
larga escala marcado pelo acirramento das tensões econômicas, políticas e
sociais na Europa durante o final do século XIX e início do século XX,
consagrando-se portanto, num choque de imperialismos. Tal fato estava
diretamente relacionado com a "corrida colonial" provocada neste
período pelas potências capitalistas com o objetivo de obter fontes de matérias-primas
e mercados consumidores.
O Tratado de
Versalhes de 1919 foi elaborado como um acordo de paz mais radical visando enfraquecer os
alemães (como um armistício alemão foi assinado num momento em que haviam
muitas de suas tropas em território francês, criou-se o mito da invencibilidade
alemã, ou seja, o alto oficialato alemão dizia-se vencedor do conflito).
Redefinir as fronteiras europeias e a conjuntura de seus envolvidos na
"Grande Guerra" foi um dos principais objetivos da Conferência de
Versalhes, a qual também serviu
para dar origem à Liga das Nações, uma instituição internacional que
deveria
zelar pelo equilíbrio dos países. No entanto, não participavam dela a
Alemanha
e a Rússia Socialista.
Versalhes foi a porta de entrada de uma sequência de outros tratados que tinha "objetos" mais específicos:
- 1919 foi assinado o Tratado de Saint-Germain, que fundava o Império Austríaco, criando a Áustria, a Hungria, a Tcheco-Eslováquia e a Iugoslávia, e também passava para o controle italiano as regiões de Trieste, sul do Tirol, Trentino e Ístria.
- 1920 foi assinado o Tratado de Sèvres (França), que extinguia o Império Turco, reduzindo seu território e assim passava suas possessões na Mesopotâmia (Iraque e Jordânia) e Palestina para o controle britânico e a Síria e o Líbano para o controle francês.
Quero me deter neste último tratado que, na verdade, não é "filho de
Versalhes", mas sim de um outro acordo, assinado ainda durante o
contexto da guerra, quando as tribos árabes se levantavam contra o
Império Turco: os
governos da França (representado por François Georges-Picot) e da
Grã-Bretanha (representado por Mark Sykes) selaram um acordo secreto em
1916, posteriormente
conhecido como acordo Sykes-Picot, o
qual determinava a partilha da região entre franceses e britânicos e o estabelecimento
de um controle político (“Mandato”) com duração de 30 anos. Dessa forma, o
desejo de independência dos árabes e dos judeus foi submetido aos interesses
das potências europeias, que julgavam importantíssimo ocupar o vácuo político
deixado pelo Império Turco no Oriente Médio.
Em azul e vermelho escuro(domínio direto) e nas áreas listradas(zona de influência).
Observar a "Palestina" marcada como "zona internacional".
Dessa forma, as atuais fronteiras do Oriente Médio começaram a ser
construídas durante e pós-guerra, obedecendo os interesses das potências
europeias em detrimento das necessidades e interesses locais e neste
caso, o Tratado de Sèvres de 1920 serviu para materializar as sigilosas
discussões feitas num contexto onde não se sabia ainda quais os
desdobramentos sobre a guerra.
Em 1920
a Conferência de San Remo levou à imposição de um mandato da Liga das
Nações para a Inglaterra administrar o Iraque, onde indicaram a
britânica Gertrude Bell (1920-26) como governadora daquela região. O
Rei Faiçal I foi coroado pelos britânicos como chefe de Estado, embora
tivesse um poder meramente simbólico perante o domínio inglês. Isto fez
eclodir uma nova rebelião separatista. Para dominar o Iraque, as tropas
britânicas realizaram uma verdadeira guerra colonial, utilizando-se de
forças blindadas e bombardeios aéreos contra vilas e cidades iraquianas
durante toda a década de 1920, que incluíram o uso de armas
químicas como o gás mostarda lançado de aviões.
Em 1932 o
Iraque teve sua independência formalizada, embora continuasse sob forte
influência inglesa, já que o Reino Unido conseguiu manter membros do
antigo governo colonial (1920-1932) durante o curto período de
independência do Iraque governado pelo Rei Faiçal (1932-1933) e na
sequência, em governos dos seus descendentes da dinastia hachemita.
Após a morte
do rei Gazi, filho de Faiçal, em 1939, foi instituído um período de
regência, pois o rei Faiçal II tinha apenas 4 anos. Na maior parte do
período de regência, o tio do rei, Abdulillah (Abdel Ila), governou o
Iraque.
Este era um
governo pró-britânico até o início da II Guerra Mundial. Em Março de
1940, o Primeiro-Ministro e General Nuri as-Said foi substituído por
Rashid Ali al-Gailani, um nacionalista radical, que adotou uma política
de não-cooperação com os britânicos. A pressão britânica que se seguiu
levou a uma revolta militar nacionalista em 30 de Abril de 1941, quando
foi formado um novo governo, pró-Alemanha, encabeçado por Gailani. Os
britânicos desembarcaram tropas em Basra e ocorreu uma rápida guerra
entre os dois países em Maio, quando os ingleses restabeleceram o
controle sobre o Iraque e Faiçal II foi reconduzido ao poder.
Em 17 de
Janeiro de 1943 o Iraque declarou Guerra à Alemanha. A Grã-Bretanha
ocupou o Iraque até 1945 e dividiu a ocupação do vizinho Irã com as
forças da URSS. Durante a guerra o Iraque foi um importante centro de
suprimento para as forças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que
operavam no Oriente Médio e de transbordo de armas para a URSS. Após a
II Guerra Mundial, o Iraque se tornou área de influência dos EUA,
assinando o Pacto de Bagdá em 1955 com EUA e Turquia.
O Iraque
participou da guerra árabe-israelense de 1947-1949 (Ver: Guerra
árabe-israelense de 1948), e apoiou os países árabes em guerra contra
Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom Kippur (1973).
Com a crise
política dos anos 1950, o Iraque chegou a formar uma confederação com a
Jordânia em 1958, que dissolveu-se com o fim da monarquia e o início da
república no mesmo ano. O período 1959-1979 foi bastante conturbado na
história iraquiana, com diversos golpes de Estado e participação em duas
guerras.
Em 17 de julho de 1968, Ahmed Hassan al-Bakr deu um golpe de estado que
derrubou a república e o presidente Abdul Rahman Arif, colocando os
baathistas no poder. Onze anos depois, em 15 de julho de 1979, o
sunita Saddam Hussein (até então vice de al-Bakr) assumiu a liderança do
país, iniciando um governo que duraria até a Invasão Americana ao
Iraque em 2003. Saddam lideraria o Iraque contra o Irã, na longa e
sangrenta Guerra Irã-Iraque, apoiado pelos EUA. Entretanto, após invadir
o Kuwait em 1990, o país foi duramente atacado pela coalizão de países
liderada pelos EUA na Guerra do Golfo, em 1991.
O governo de
Saddam foi marcado por avanços econômicos e desenvolvimento do país, sem
paralelo com história anterior da nação. Contudo, após a guerra contra o
Irã e contra as potências ocidentais pelo Kuwait, a economia do Iraque
entrou em colapso. A corrupção no seio do regime e o encolhimento
econômico foi seguido por anos de tensão sectária, entre sunitas, xiitas
e curdos. Para reprimir uma rebelião deste último, perto do fim da
guerra com o Irã, as forças de Hussein lançaram a chamada Operação
Anfal, que resultou em mais de 180 000 mortes. Os xiitas também se
rebelaram, em 1991, mas sua revolta foi igualmente sufocada, com um
saldo de mais de 230 000 pessoas mortas.
Durante
a década de 1990, o país foi assolado com tensão sectária e pobreza
extrema (especialmente entre a população xiita), decorrente da má
gestão, da infra-estrutura precária e da corrupção do regime sunita de
Saddam. Os Estados Unidos e seus aliados realizaram bombardeios
esporádicos pelo país (como em 1996 e 1998).
Duas zonas de exclusão aérea (as operações Northern Watch e Southern Watch)
sobre o Iraque foram impostas pela OTAN, com o objetivo de limitar a
capacidade do exército iraquiano de usar violência exagerada contra as
minorias e tentar impedir repressões étnicas, ao mesmo tempo que tentava
enfraquecer o regime baathista. Isso acabou por deteriorar ainda mais a
infra-estrutura civil e militar do país.
As "Zonas de Exclusão Aérea": ao norte do paralelo 36 (Northern Watch) e ao sul do paralelo 33 (Southern Watch)
Após
usar armas químicas e biológicas na guerra contra o Irã e na repressão
dos xiitas e curdos, o regime de Saddam Hussein começou a sofrer pressão
internacional para que ele abrisse mão de tais armamentos. Sanções
econômicas foram então impostas pela comunidade internacional e pela
ONU, devido a falta de colaboração das autoridades iraquianas. O
resultado foi em uma acentuação da pobreza e deterioração da
infra-estrutura interna. Contudo, apesar de tudo, o regime de Saddam permaneceu firme até 2003, quando uma coalizão ocidental dos Estados Unidos o derrubou do
poder, ainda alegando a posse de "armas de destruição em massa"
químicas e biológicas, tendo toda uma teia de relatório forjados pela
CIA, que dessa forma, deu condições para a pressão encabeçada por George
W. Bush dos EUA e Tony Blair pela Grã-Bretanha. Vale lembrar que,
ambos, sustentaram a ação no Iraque até o fim, sempre dando como
verdadeiras as "informações dos relatórios de inteligência".
Apesar
da vitória sobre Saddam, a questão da falsidade das informações e sua
manipulação, levaram ao desgaste tanto o governo de Blair, que renunciou
ao terceiro mandato como primeiro-ministro em 2007 quanto Bush e os
republicanos que foram derrotados em 2008 com a eleição de Barack Obama
para a presidência dos EUA. Ficou cada vez mais evidente que, apesar da
retórica forjada nos relatórios faciosos, o interesse maior era o acesso
às reservas iraquianas de petróleo.
Apesar da
rápida vitória e deposição do regime de Saddam Hussein, a ocupação
acabou sendo desastrosa. Grupos xiitas e sunitas armaram-se e começaram
um movimento de resistência contra as forças da coalizão ocidental. Os
rebeldes também começaram a combater não só os americanos mas uns aos
outros, dando início a um sangrento conflito de caráter sectário e
religioso. Diversas facções como o chamado "Exército Mahdi", uma milícia
xiita, e a Al-Qaeda, primordialmente sunita, começaram, a partir de
2004, sangrentos embates por todo o país. Entre 2004 e 2007, o Iraque
viveu uma guerra civil que acabou ceifando centenas de milhares de
vidas. Nesse meio tempo, em 2006, Saddam Hussein foi levado a julgamento
por crimes contra a humanidade e enforcado.
Para sucede-lo
no poder, foi instituído um governo (formado por autoridades
estrangeiras) chamado Autoridade Provisória da Coalizão, chefiado pelo
americano Paul Bremer. Contudo, tanto a execução de Saddam quanto a
formação do governo provisório, não conseguiu trazer um fim na violência
que assolava a nação. A dissolução do exército baathista e da antiga
infra-estrutura governamental pelas potências ocidentais acabou levando o
país ao caos, virando o Iraque numa zona de guerra sangrenta e brutal.
Estima-se que
mais de 500 000 pessoas tenham morrido no conflito no Iraque entre 2003 e
2011.Nem mesmo a instalação de um parlamento democraticamente eleito em
2005 (o primeiro em décadas) conseguiu por um fim na violência sectária
e religiosa que assolava o Iraque. Ibrahim al-Jaafari, nomeado
primeiro-ministro, não conseguiu trazer o país a estabilidade esperada.
Seu sucessor, Nouri al-Maliki, também falhou no propósito de trazer um
fim a guerra. Em 2007, o presidente americano George W. Bush ordenou o
envio de 20 000 novos soldados americanos, elevando o total de forças
estrangeiras no Iraque para 176 000 combatentes (incluindo 148 000
estadunidenses). Após o envio destes reforços, aparentemente, a
violência no país começou a cair. Com a situação de segurança melhorando
e a economia do país começando a estabilizar, o Parlamento iraquiano
pediu formalmente para que os Estados Unidos que retirassem suas
tropas.
No ano
seguinte, forças dinamarquesas, australianas e de outros países
começaram a retirar suas forças do Iraque. Ainda em 2008, o Reino Unido,
principal parceiro dos americanos na região, também deram início a sua
retirada do território iraquiano. No mesmo ano, o governo Bush e o
primeiro-ministro do Iraque firmaram um acordo para a retirada completa
dos soldados dos Estados Unidos do país, encerrando as atividades da
coalizão por lá. Generais americanos criticaram o plano, afirmando que
sua saída de lá poderia reascender o conflito. Porém, a administração do
presidente Barack Obama, que sucedeu Bush, estava determinada a
encerrar a guerra do Iraque de uma vez por todas. Em 2009, o exército
dos Estados Unidos começou a passar a responsabilidade de defesa do país
para as forças de segurança iraquianas (armadas e financiadas pelos
americanos).
Fonte: Jornal "O Estado de São Paulo"
Fonte: Jornal "Folha de São Paulo"
Fonte: Jornal "O Estado de São Paulo"
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